quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Livro do Fim do Mundo

Descobri um projeto bem legal, O Livro do Fim do Mundo. A ideia é a seguinte: se você descobrisse que o mundo iria acabar em uma hora, o que faria? Era só mandar um texto com 20 mil caracteres, sem revelar a causa do fim do mundo, contando o que faria nessa uma hora que precederia o fim. Os melhores textos form selecionados para um livro impresso. Eu mandei um texto, mas infelizmente não foi selecionado para o livro. A seleção já acabou, mas ainda é possível ler todas as estórias que foram mandadas, é só clicar aqui. Segue o texto que mandei, leiam e comentem:


 A Culpa


Ele não assistia muito à TV. O aparelho de som só era usado para tocar seus discos favoritos. Era uma pessoa desligada da realidade, um recluso, um eremita moderno. No prédio onde morava, não havia ninguém que pudesse chamar de amigo. Na verdade, no prédio onde morava poucos sabiam seu nome.
Quando a fatídica notícia foi dada ele estava lendo, e permaneceu lendo por mais algum tempo depois que a histeria se estabeleceu. O que conseguiu o distrair da leitura, foram os gritos que vinham de vários apartamentos e os passos na escada que subiam e desciam rapidamente. A primeira coisa em que pensou foi que alguma dessas malditas festas popularescas havia chegado. Decidido a continuar lendo, ele ligou o ar-condicionado e fechou as janelas. Colocou também protetores nos ouvidos e fechou as cortinas. Pronto,estava novamente em paz. Leu mais alguns capítulos de seu livro, até que a fome lhe tirou a atenção novamente. Andou pelo apartamento sentindo a sensação de viver ausente de tudo, essa sensação sempre lhe agradava, ele se sentia superior, se imaginava rei em um reino sem súditos. Seu apartamento era sua fortaleza, e desde que não saísse de lá, nada o afetaria.
Na cozinha, enquanto preparava um lanche, ele olhava o céu nublado. As nuvens carregadas ainda deixavam a luz do sol passar. A luz pálida que invadia a cozinha foi rapidamente cortada por um vulto, e quando ele se aproximou da janela para ver o que era, mais três vultos cortaram o ar em direção ao solo. Pela janela ele viu uma bela família, pai, mãe, dois filhos, estatelados no pátio. Viu também pessoas correndo e gritando desesperadas, sem se importar com a cena triste da família. As pessoas nos carros estavam tentando sair do prédio todas ao mesmo tempo, havia muita confusão, buzinas e até brigas entre os vizinhos. Na rua ele viu mais pessoas agindo como doidas, e então tirando o protetor dos ouvidos, ele percebeu que havia algo muito sério acontecendo naquele momento.
Na TV ele viu as cenas do seu prédio se repetindo em todo o mundo, viu pessoas correndo sem saber pra onde, pessoas pulando de prédios, chorando, brigando, se abraçando. Era um espetáculo difícil de assistir, até para ele. E então, enquanto as imagens chocantes continuavam a passar, ele foi informado de tudo pelo repórter. A princípio duvidou, mas ao analisar as evidências dadas na TV, viu que de fato tudo acabaria em poucos minutos. Sentiu-se aliviado, provavelmente feliz.
Se algum vizinho ainda estivesse no prédio, teria visto uma cena inusitada. O recluso morador do terceiro andar estava descendo as escadas vestindo um elegante terno e com uma calma contagiante. A leveza e serenidade de seus passos poderiam até mesmo tranquilizar aquelas pessoas que logo iriam morrer. Mas ninguém o viu. Ele saiu do prédio com dificuldade, pois a situação era caótica na portaria, mas sem perder a calma, e assim continuou andando pelas ruas alheio a toda a confusão ao seu redor. Já não estava mais refugiado em sua fortaleza, mas agora isso pouco importava, ele não temia mais enfrentar o mundo, pois esse já estava acabando.
Caminhou até a praia, sentou-se na areia e pensou em todas as vezes que queria ter feito isso antes. Ele tirou os sapatos e enfiou os pés, cansados do piso do apartamento, na areia depois de tantos anos se escondendo. O relógio indicava apenas mais alguns minutos. Algumas pessoas apenas entravam no mar, outras subiam em pranchas e tentavam chegar o mais longe possível da praia, mas ele continuava ali sentado na areia. E então, em seu último minuto de vida, enquanto ele via tudo acontecendo à sua volta, finalmente ele conseguiu se perdoar.


 Daniel.

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